Amarelo manga


 

Sessão das 3 e meia da tarde. Especial. Ingresso a três reais. Cinema cheio. No shopping da Frei Caneca. Aquele em que mais de 3000 gays beijaram-se protestando contra a discriminação e proibição do beijo de dois rapazes gays.

Na segunda fila, com o nariz na tela, vi o filme do pernambucano Cláudio Assis,Amarelo manga, seguindo o movimento da câmera, os zooms, observando as tomadas, ouvindo o diálogo, a trilha e os efeitos sonoros de perto, muito perto.

De amarelo este filme tem muito. Do doce, do gostoso da manga, nada. Está mais para pimenta dedo de moça, amarela, redonda, ardida. Da primeira à última cena, é uma porrada só.

Sem dó nem piedade, Assis revela o dia-a-dia de alguns personagens do Hotel Texas, do Bar da Lígia, do matadouro. Dos desejos, sonhos e frustrações de cada um, cria uma trama em que a miséria e tudo que a cerca, domina, corrompe, suja.

No Hotel Texas, domínio de Dunga, Mateus Nachtergaele, excelente e no botequim de Lígia, Leona Cavalli, ótima, a ação toma corpo e se desenrola por Recife afora.

Cinema verdade, sem pretensões a denúncias tipo mundo cão, Amarelo manga é cinema dos melhores.

O que dizer da célebre e rapidíssima cena de Sharon Stone em Instintoselvagem, depois da cena de Cavalli em cima da mesa do bar, na frente de todos os freqüentadores habituais, levantando a saia e mostrando a Isaac, Jonas Bloch, sem pressa, os pelos pubianos e o sexo?

Nada! Não há o que dizer. A de Cavalli está anos luz à frente. E Amarelo mangatambém está quando se pensa na maioria dos filmes que a televisão e Hollywood nos impingem.

Marcados por interpretações das melhores, Bloch, Dira Paes, Chico Diaz e Magdale Alves vivem seus personagens transmitindo-lhes inquestionável veracidade. Sub estratos de uma sociedade cruel, correspondem ao que ela é.

Buñuel uma vez retratou em um filme a miséria de uma cidade. Os moradores nunca lhe perdoaram isso. Espero que o mesmo não aconteça com Assis. Seria uma pena.


Carlos von Schmidt
1 de setembro 2003 2horas 5'