Baravelli
Mês passado a J.J. Carol editora lançou mais um livro da série Portfolio Brasil. Baravelli. O livro é uma revelação. Rutman, o editor, teve o bom senso de entregar à Baravelli a criação e a direção de arte. Resultado, um livro de autor.
Com texto e design de Baravelli. Articulado, fluente, o ex-professor de cursinho, claro, objetivo, didático e preciso, mostra, através de seus textos e de suas imagens, o que pensa sobre o trabalho que realizou de 1965 até os meados de 2006.
Conheci Baravelli no final dos anos 60. Freqüentava o curso livre da FAAP. Eu dirigia o MAB, Museu de Arte Brasileira. Desde novembro de 1965 editava o artes:. Às vezes nos cruzávamos no hall.
Nesses 40 anos tivemos muito pouco contato. Mas, o tempo todo estive de olho no que Baravelli fazia e escrevia. Acho que foi nos anos 80 que estive em seu ateliê. Foi uma boa conversa.
Baravelli para mim é como retrospectiva. São mais de quarenta anos de memórias, imagens, momentos e pensamentos. Vivos. Dinâmicos. Sem saudosismo. Nostalgia.
O livro chegou na hora certa. No momento em que muitos dos contemporâneos de Baravelli empacaram.
Não conseguem por incompetência, preguiça ou comodismo, sair de suas óbvias mesmices repetidas ad nauseam, sob múltiplos disfarces. Tautologia pura. Não passa disso. As exceções são raras.
Hoje, se me perguntassem de quem levaria uma pintura para a ilha deserta, último refúgio, depois do Apocalipse, responderia sem a menor hesitação, de Baravelli.
Encontro na sua pintura, contemporaneidade, ritmo e dinâmica, ação e reflexão. É uma pintura que têm a ver com o mundo em que vivo e o que penso sobre pintura. Isso é essencial. Falta na maioria dessa pintura pobre, fraca, sem rumo, que anda por aí.
Dessa pintura que no futuro ninguém vai lembrar que existiu.
Irrelevante.
São Paulo 4 de novembro de 2007 16H18 Carlos von Schmidt
artes: - 42 anos depois do seu começo o que o senhor destacaria como fundamental na sua carreira?
Baravelli - Ter mantido uma independência e eqüidistância em relação a tudo, especialmente ao mercado e às instituições de arte e de ter conseguido sobreviver exclusivamente de meu trabalho, sem concessões importantes.
artes: - Dos artistas plásticos contemporâneos o senhor é dos poucos que tem plena consciência do que fez e faz. Como foi que o senhor chegou à essa visão analítica essencialmente crítica?
Baravelli - Acho que sou da primeira geração de artistas plásticos que freqüentou a Universidade. Devo muito a essa experiência conseguir separar o que é impulso pessoal do que é cultural e coletivo.
artes: - Ao ler Baravelli, escrito na primeira pessoa, sabe-se que o livro como livro é também uma criação sua. Como foi que o projeto livro se desenvolveu?
Baravelli - Mérito do editor Jacques Rutman ao eliminar do caminho os egos inflados e custosos de críticos, curadores e seus textos propositadamente incompreensíveis. A proposta dele foi simples e transparente: conte sua história, do seu jeito, em textos e imagens. E faça um livro barato, para os estudantes.
artes: - A sua obra é na arte contemporânea brasileira reconhecida como revolucionária e em permanente evolução. Quando pinta ou constrói um objeto o senhor sente que aquela obra questiona valores estabelecidos e propõe novos?
Baravelli - Reconheço que existe uma evolução constante, embora não linear, porém fiquei um tanto surpreso (agradavelmente, diz minha vaidade) com o termo revolucionário. Mas, em nome da honestidade intelectual, não posso aceitar. Revoluções são fatos coletivos e não tenho seguidores, o que seria inviável a partir de uma obra tão individual como a minha.
Quanto à segunda parte da pergunta: no começo dos anos setenta, tendo plena consciência dos caminhos que a arte contemporânea abria (fotos, vídeo, performances, instalações, intervenções e que tais) escolhi ser pintor e me referir a uma tradição que vem desde a pré-história. Um caminho em direção ao centro denso da arte e não para uma periferia difusa e especulativa. Cavar um nicho próprio e novo neste núcleo sólido da pintura é uma pretensão e tanto e por isso mesmo vale gastar 42 anos nessa procura, que continua.
artes: - O senhor disse que “no estúdio começam a conviver desenhos, quadros e recortes. Os recortes se tornaram uma grande e complexa discussão do quadro e de tudo que ele implica. Isso continua até hoje, 2006”. Por favor, fale sobre essa complexa discussão.
Baravelli - Tem a ver com a pergunta anterior. Acho que a grande invenção da humanidade não foi o fogo ou a roda (que já existiam antes do homem), mas o retângulo, presente agora em toda atividade humana e que, não sendo visível na natureza, teve de ser inventado. Desde então seu uso é uma afirmação diária e constante que não somos animais. Daí o quadro, espaço por excelência da arte (artificial, por definição) da representação. Um recorte, ao eliminar o quadro, coloca a imagem na referência retangular seguinte, uma sala, com certeza. Os meios e modos dessa invasão são a discussão subjacente em todo meu trabalho e cada pintura discute e argumenta os infinitos modos da criação da ordem retangular e de suas alternativas e subversões (sub-versões).
artes: - O que foi relevante na sua formação artística. E o que não significou nada?
Baravelli - Por ordem cronológica:
a- A formação arquitetônica.
b- Um curso livre de desenho e pintura que fiz na FAAP lá por 1960, com Yolanda Mohalyi. Ela, húngara, não falava uma palavra de Português e aprendi o que significa “comunicação visual”.
c- O curso de dois anos que fiz com Wesley Duke Lee, juntamente com Carlos Fajardo, Frederico Nasser e José Resende.
d- A disciplina necessária para ter dado uns vinte anos de aula de linguagem arquitetônica em um cursinho para candidatos aos vestibulares das faculdades.
e- Ser um dos fundadores e ter dado aulas, com Fajardo, Nasser e Resende, durante quatro anos, na Escola Brasil, o que foi minha ‘pós-graduação’.
Quanto ao que não significou nada, compreensivelmente, não lembro.
artes: - Planos em andamento e para o futuro?
Baravelli - Além de desenhar e pintar diariamente e produzir continuamente mais pontos para adensar esta espécie de constelação que é meu trabalho, como estamos falando de livros, estou preparando mais dois (também escritos na primeira pessoa) para a mesma coleção da editora J.J.Carol: um de comentários mais longos sobre minhas pinturas, uma tentativa de auto-analisar meu trabalho e outro reunindo meus textos, artigos, entrevistas, conferências etc.
