Erotismo à italiana

Corriere della Sera  Julho de 2007
Corriere della Sera Julho de 2007


A foto que ilustra este texto ficou célebre depois que o jornal britânicoFinancial Times, publicou um artigo de quatro páginas criticando o machismo italiano na publicidade, useira e vezeira em explorar a mulher como objeto sexual. 

Adrian Michaels, o indignado autor do texto, diz que é revoltante ninguém protestar. A publicidade na televisão é dominada pelo “uso de bailarinas em todos os gêneros de programas televisivos, as peças publicitárias dominadas por alusões sexuais, o uso da mulher como objeto, destinada a excitar os órgãos genitais dos homens em vez do cérebro”.
Observa que “aparentemente as mulheres não vêem nada de mal em terem seus corpos expostos para divulgar qualquer produto”.

Fazendo eco ao Financial Times os jornais Corriere della Sera e La Repubblica, publicaram “A Itália é o país das mulheres nuas” e “Onde as mulheres são apenas objetos”. 

Ambos comentam o texto do correspondente do Financial Times que trabalhava em New York e há três anos trabalha e vive com a mulher em Milão. Falam do erotismo na tv, de feminismo, da mulher que trabalha, da que faz política. Sobretudo falam das chacretes, moças bonitas, sensuais, sorridentes, conhecidas na Itália como velinas ou vallettas. Ser valletta é o grande sonho de grande parte das adolescentes italianas. 

A atriz Francisca Reggiani em entrevista ao La Repubblica disse:“há uma grande confusão. As jovens não entendem mais a diferença entre o trabalho de uma atriz e aquele de uma valletta.” “Entre seios e traseiros ao ar estamos arriscando chegar a um retrocesso cultural do pais”. 

Publicitários, sociólogos, psicólogos e até uma ministra, Emma Bonino, ministra para o Comércio Internacional e para a Política Européia, conhecida feminista nos anos 70, disse que depois da luta pelo divórcio e pelo aborto, o feminismo na Itália parece não existir mais. Falou que a porcentagem de mulheres no Parlamento é de 11%, a mesma de 30 anos atrás. 

Em outro artigo, L’Italia un paese de veline le donne sono solo oggeti, o correspondente do La Repubblica em Londres, Enrico Franceschini, rebate o artigo do colega britânico. Mas não consegue tapar o sol com a peneira. Os números mencionados por Michaels são indiscutíveis.
Enquanto nos países escandinavos 23% de mulheres fazem parte de conselhos administrativos, nos Estados Unidos, 15%, na Itália apenas 2% participam.

Chacretes do programa Passaparola
Chacretes do programa Passaparola

Com relação à participação feminina em trabalhos de meio expediente a porcentagem na Itália é de 15%. Na Alemanha é de 21. Na Holanda 36. 

Francheschini dá a mão a palmatória ao escrever sobre as “dançarinas” semi-nuas, as vallettas, nos programas de tv, na propaganda e na publicidade em geral.

Na televisão, na imprensa, nos outdoors a publicidade de um celular da Tim, praticamente invisível na foto, enquanto os seios, fartos, as coxas, da modelo Elisabetta Canalis, célebre da noite para dia, “vendem” o aparelho telefônico, foi a gota d’água que provocou a polêmica sobre o assunto.

Encerra o texto citando uma frase de um publicitário mencionado no artigo doFinancial Times, "O homem e a mulher italiana não serão jamais como o homem e a mulher britânica". 

Conclusão obvia. Tão pouco criativa como a da publicidade que despe mulheres para vender seja lá o que for. E estamos no século 21. 

São Paulo 23 de julho de 2007 20h16 Carlos von Schmidt