O Último Samurai
Depois de ver O Último Samurai, de Tom Cruise e de Edward Zwick, com roteiro de John Logan, me perguntei: o que Kurosawa diria do filme? E Mishima?
Como Kurosawa, mestre dos mestres em analisar a alma japonesa através de filmes de época, jidai-geki e de ação, chambara, veria este filme em que os dois gêneros se sobrepõem e se completam?
Zwick, o diretor, em entrevistas deixou claro sua admiração por Kurosawa. Não tomei conhecimento de nenhuma declaração de Logan, mas é mais do que óbvio que lê pela mesma cartilha.
Isso significa que em O Último Samurai seguiram a pegada de Kurosawa sem hesitar. Ele está presente o tempo todo.
Nas cenas de batalha, no samurai calado interpretado por Seizo Fukumoto, sem dúvida inspirado em Kyuzo, outro samurai taciturno de Os Sete Samurais na troca de olhares entre Youkuki, Taka e Algren, Cruise na movimentação das câmeras, nas tomadas dos planos, nas insubstituíveis e fotogênicas cerejeiras em flor.
Isso é ruim, negativo? Não! É muito positivo. Sem o toque Kurosawa, O Último Samurai seria um desastre. Um pastiche. Não é!
Zwick e Cruise demonstram que, além da ousadia e da coragem, não brincam em serviço. O filme é do começo ao fim irreprochável.
No início deste texto perguntei o que Kurosawa diria do filme. Sempre que alguém lhe perguntava sobre “o significado” de uma cena, sorrindo, respondia: “Bem, se pudesse responder isso não seria necessário para mim filmá-la, seria?”
Com isso queria dizer que a cena falava por si. Acho que diria que O Último Samurai também fala por si.
Nunca saberemos o que Kurosawa teria feito com o roteiro de Logan, mas com certeza o filme seria outro. Sem dúvida visceralmente mais japonês.
Quanto a Mishima, que viveu os últimos anos de sua vida obedecendo e respeitando o Bushido, código de ética do samurai, e morreu, segundo esse código, fazendo seppuku, a meu ver encontraria em O Último Samurai identidade e afinidade infinitas.
Dentro de semanas saberemos através do Oscar o que O Último Samurai significou para o mundo do cinema. Não me surpreenderei se for super premiado. Tem tudo para sê-lo.
Carlos von Schmidt
São Paulo 5 de fevereiro de 2004 10h30
